“O gosto pela
leitura e escrita começou desde cedo ao ver minha irmã mais velha lendo e
escrevendo tudo, de forma muito natural. Aquilo para mim era a coisa mais
fantástica do mundo, e eu queria o quanto antes poder fazer a mesma coisa. Os
meus primeiros anos de escola foram frustrantes, porque eu estava na escola e
mesmo assim ainda não lia como minha irmã. Cheguei até a ficar preocupada com
essa demora, acreditando que eu tivesse algum problema, pela dificuldade que
tinha em ler e escrever. Com o passar do tempo, adquiri essa habilidade, a
ponto de, no final do ano letivo ganhar um livro da professora, por ter sido
uma boa aluna. Cheguei em casa toda orgulhosa mostrando o livro para todos. Eu
não me lembro de quantas vezes eu li e reli aquele livro, o Sítio do Pica-Pau
Amarelo, do Monteiro Lobato, tamanha era a alegria em ter um livro só para mim.
Essa atitude da professora foi o maior estímulo que eu poderia receber, para
continuar me esforçando cada vez mais nos meus estudos.”
Rosi da Silva
“A minha competência
leitora foi através do incentivo de meus pais. Principalmente do meu, pois
sempre gostou de música sertaneja e como toca instrumento musical (viola) eu
transcrevia as musicas que era gravado na fita cassete, assim eu realizava a
leitura varias vezes para ele tocar e cantar. Isso facilitou no meu
desenvolvimento tanto na leitura quanto na escrita. Esse incentivo criou uma
leitora autônoma.”
Inês da Silva
Carvalho
“Que prazer em poder
lembrar meus primeiros contatos com o mundo da leitura e escrita! Estou
tentando manter-me no limite da racionalidade quando a emoção começa a aflorar
e a querer dominar-me, quanta saudade dos meus pais! Quanto amor em gestos tão
simples! Minha mãe, totalmente analfabeta, mas com um conhecimento de mundo
impressionante, por não ter acesso às letras tudo fazia para que nós, seus sete
filhos, aprendessem as letras. Meu pai estudou até a antiga segunda série
primária, era um homem incrível, uma letra invejável, sempre participava de
encontros comunitários e era de responsabilidade dele redigir tudo o que fosse
discutido, era chamado para ler as receitas médicas para todos da nossa
comunidade local. Não tínhamos livros naquela época, tínhamos uma
Bíblia que foi do meu avô, ilustrada, então escolhíamos um desenho e meu
pai lia para nós, depois minha irmã (mais velha) aprendeu a ler e lia para nós,
depois chegou a minha vez e lia para meus irmãos e assim foi, hoje a tenho
comigo, trouxe-a para minha casa, uma joia rara, uma relíquia, se vocês
pudessem vê-la! E foi assim a minha entrada neste mundo "letrado",
daí vieram outros livros pelos quais me apaixonei, mas nenhuma paixão por
livros chega perto do amor que tenho pela minha "bíblia", como
gostaria de mostrá-la a vocês, é tão diferente!!! Só para fechar, destaco, aqui,
a importância da participação dos meus pais guiando a mim e meus irmãos na
leitura e escrita, na nossa formação. Perdoem-me, mas, estou muito
emocionada!!! Obrigada a todos que propiciaram este momento.”
Maria da Conceição
Silva Oliveira
“Minha experiência
com a palavra escrita iniciou-se com minha mãe em casa mesmo. Ela
cuidadosamente nos preparou para nossa inserção precípua em âmbito escolar, nos
ensinando as letras do alfabeto e aplicando-nos caligrafia para já ir
reconhecendo as formas e os valores de cada uma delas. Contudo, me vendo em
sala de aula diante do aprendizado sistemático e tradicional da cartilha,
descobri dificuldades em ler e escrever. Tentava, mas na maioria das vezes
chorava por sofrer aquela exposição que antigamente faziam com os alunos que
não conseguiam alcançar sucesso quando se dirigiam ao quadro negro.
Desesperei-me e praticamente desisti de ler, nem o apoio de minha mãe mais
resolvia, lembro-me que as leituras que me interessavam eram de imagens, quase
nunca compatíveis com as realizadas pelos grupinhos da biblioteca que me
apontavam dizendo: “Ela não sabe ler ainda por isso só pega livros com
imagens!”. Na verdade, eu sabia ler sim, mas minha leitura era demorada e
falha, por tamanho constrangimento, decidi não me expor mais e entrei no
período da “concha” até ser percebida por alguém muito especial, que de fato
despertou em mim o interesse por conhecer, explorar e desvendar o universo da
palavra escrita. Como disse em estudos anteriores, Gabriel O Pensador:
“(...) tinha
preguiça de começar a escrever (...) Minha vó que por acaso ela era
ex-professora, ela disse que eu aprendi a ler sozinho, mas na verdade foi na
casa dela, me ensinou antes da escola e também me ensinou outras coisas com
muito carinho.”
Foi minha vó Jovira
com sua ternura e paciência que me fez sair da “concha”, que descobriu minha
dificuldade e fez desvelar aos poucos este mundo paralelo da palavra escrita,
escondida em uma estante enorme que havia em sua sala...Lá aos poucos ela me
mostrava os livros e enquanto falava eu os folheava a esmo só para que os olhos
percorressem seu interior e displicentemente descobrissem algo de interessante,
foi aí que ela me falou sobre a coletânea do “Ali babá e os quarenta ladrões”,
os livros de “Astrologia de Omar Cardoso”, um livro gigante e ilustrado de
fábulas como “O Pinóquio”, os livros de história que falavam sobre a trajetória
do País, os atlas geográficos, e pequenos livretos com histórias fantásticas
entre elas a que me salvou: “Clarinha na Ilha”. Vovó se deteve a me explicar
como deveria ler, mas estava mesmo interessada era nas imagens, em criar meu
próprio universo diante das possibilidades do que de fato queriam dizer aquelas
letrinhas todas juntas, formando palavras que se espalhavam pelo livro... Mediante
o desafio proposto por minha vó: “Gostou filha? Então agora no seu tempo tente
ler e depois conta pra vovó sobre o que fala?”, em minha mente comecei a ler as
imagens e criei minha própria história, contei à ela e ela aceitou, mas disse
que aquela não era a história real da Clarinha, que a versão que criei foi
ótima, mas ela precisava saber a história verdadeira da menininha com o jabuti
na Ilha. Não vou negar para mim aquilo foi mais questão de determinação, força
própria e vontade, demorei umas duas semanas pra conseguir decifrar as letras e
por fim ler tudo aquilo. Foi emocionante quando terminei e pude contar a ela a
verdadeira história da personagem descrita no livro, mas isso só aconteceu um
tempo depois, porque inicialmente li, mas não dei sentido ao que li só depois
tudo foi tomando a proporção merecida conforme lia a história duas, três,
quatro vezes. Vovó me deu parabéns e minha mãe percebeu que aos poucos fui
melhorando também na escola, já com oito anos estava lendo tudo por plena
curiosidade, inclusive os livros da estante da vovó! Então posso dizer que como
Gilberto Gil disse: “O meu professor paradigmático da minha vida foi minha
vó mesmo (...) foi ela quem me apresentou ao mundo do conhecimento (...).” Minha
experiência com a palavra escrita me fez de fato tomar gosto pela leitura de
coisas interessantes, inusitadas, inimagináveis, sempre queria ler coisas
adversas as dos outros, tive dificuldade de novo pra ler um livro
na 5ª série (atual 6ºAno) chamava-se: “O Segredo da Casa Amarela”_ de Giselda
Laporta Nicolelis. Mas esta dificuldade surgiu porque tínhamos de ler o livro
com um fim: Sermos avaliados. Mas já na oitava série li “O guarani” sem maiores
prejuízos porque me identifiquei com a trama, amava romances, histórias
envolventes, mas em que o autor usasse daquela linguagem rebuscada, em dado
momento de minha vida que não sei precisar, resolvi que quanto mais difícil
fosse a palavra, melhor pro meu repertório linguístico! Comecei a ler com
dificuldade, mas já sabia me expressar muito bem aos nove quando escrevia
histórias em uma máquina olivetti emprestada de minha vizinha, por isso, quando
fiz doze, treze anos descobri que seria muito importante que eu lesse mais pra
ampliar meus horizontes e visão de mundo, angariar conhecimentos e descobrir
afinidades. Agora leio, leio, mas mais escrevo e escrevo, e como dona Clair
minhas amigas também dizem que escrevo bem, falta apenas lançar-me neste mundo
de possibilidades e aliar ao mundo da palavra escrita, o meu parecer e o meu
ser para que também seja lido.
“Eu escrevia meus
poemas e ela disse que era lindo tudo o que escrevia e eu acreditei (...) e
gostei, gostei de uma lágrima poder fazer um mar (...) estou vendo uma mudança
em mim, que as coisas que eram importantes, na verdade não eram importantes
(...) parece que passei a gostar mais do mundo e das pessoas (...) as coisas
passaram a ter pra mim um valor diferente.” Clair
A palavra escrita
muda a gente, nos desperta pra um universo desconhecido e muitas vezes
imaginário, que só existe no coração de quem intenciona registrar em um papel
sentimentos, emoções e histórias, que transformam nossas vidas e até mesmo
nossa personalidade...É transcender uma folha e ganhar asas no interior de cada
leitor! É o que no extremo das conceituações Rubem Alves diz:
“O escritor
transforma – ou, se preferirem uma palavra em desuso, usada pelos teólogos
antigos, “o escritor transubstancia” – sua carne e seu sangue em palavras e diz
a seus leitores: “Leiam! Comam! Bebam! Isso é a minha carne. Isso é o meu
sangue!”. A experiência literária é um ritual antropofágico. Antropofagia não é
gastronomia. É magia. Come-se o corpo de um morto para se apropriar de suas
virtudes. Não é esse o objetivo da Eucaristia, ritual antropofágico supremo?
Come-se e bebe-se a carne e o sangue de Cristo para se ficar semelhante a ele.
Eu mesmo sou o que sou pelos escritores que devorei... E se escrevo é na
esperança de ser devorado pelos meus leitores.”
Cibele Jacometo
“A família é a base
para tudo e a sua mãe e vó contribuíram para seu grande aprendizado. No meu
caso minhas primeiras palavras foram escritas em um pequeno caderno de brochura
que foi muito importante para mim. Quando criança não fui, infelizmente,
apresentada ao mundo fascinante dos livros porque para uma grande família e
somente um trabalhador suprir as necessidades básicas era mais importante. Mas,
mesmo não podendo comprá-los meu pai os valorizava e o fazia por meio dos
estudos e da escola. No início do ano o mais importante para ele era o material
escolar, comprava-os com antecedência. E lá estava ele, o caderno de brochura
dentro de uma pasta de papelão acompanhado de lápis e borracha. Eu abria a
pasta várias vezes ao dia, cuidadosamente olhava as folhas em branco e
imaginava quando iria preenchê-las. Não via a hora...Com o tempo as preenchi e
finalmente a escrita e leitura vieram e com graça e alegria. Mais tarde os
livros chegaram e "O pequeno príncipe" também. Fascinei-me,
principalmente quando meu professor de Geografia, no dia das crianças,
entregou-me um pequeno papel datilografado "Tu és responsável por aqueles
que cativas" e com este pequeno trecho explicou que o livro foi escrito
para as crianças, mas, na verdade a mensagem era para os adultos. Concordo com
ele, mas também devemos ensinar às crianças porque quando chegarem à fase
adulta entenderão a mensagem e as praticarão. A escrita não apareceu na minha
vida da mesma forma que na do Gabriel, o Pensador, Gil e Cibele com a ajuda das
maravilhosas vós, mas por meio do meu pai, um escritor e leitor sem livros.”
Simone Custódio





Parabéns aos professores desse Blog "Casulo do Saber" a página está muito bem elaborada e os artigos estão bons!
ResponderExcluir"Só existe um jeito de aprender a escrever melhor: ESCREVER" (Doris Lessing)
Um grande abraço!
Ademilde
Professores o blog de vocês está simplesmente maravilhoso, e a cada depoimento só nos faz acreditar que ainda podemos construir uma sociedade leitora. Parabéns
ResponderExcluirProfessores a cada depoimentos que lemos nos blogs,sempre temos a grande participação dos nossos pais em nossa vida, e percebo o quanto isso faz falta na vida de nossos alunos hoje, pois muitos deles só vê os pais à noite e quando vê, pois muitos deles saem de manhã e só voltam à noite e acabam deixando um vazio na vida de seus filhos. E eu vejo que a família é importantíssima na vida escolar de nossos alunos, pois já presenciei pais chegando na escola e dizer que não quer que mande mais os livros didáticos e leitura que o governo oferecia, pois ele não tinha onde guardar e só ficava tomando lugar em sua casa. Isso é um absurdo nos dias de hoje, nossas crianças estão sujeitas a tantas coisas ruins neste mundo e quando tem a oportunidade de ter em mãos uma "sabedoria" e se livrar das ruas , ainda tem pai com o pensamento de que" estudar pra quê?" tem é que trabalhar.
ResponderExcluirParabéns ficou muito bom o blog de vocês, espero que a partir de agora todos nos possamos trocar experiências, um abraço
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